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YHWH e Asherah

  • Foto do escritor: Igor Emerich
    Igor Emerich
  • 28 de jun.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

Imagens representando a deusa Asherah
Imagens representando a deusa Asherah

Embora as raízes da deusa Asherah (ou Aserá) remontem aos povos semitas ocidentais (cananeus, arameus e amoritas), seus primeiros registros históricos surgem, paradoxalmente, na Mesopotâmia, no século XVIII AEC, no governo de Hamurabi, onde Asherah era conhecida como Asratu(m).[1] Esse paradoxo pode ser explicado pelo fato de Hamurabi ter pertencido a uma dinastia amorita que conquistou e governou a Babilônia.[2] Certamente Hamurabi levou para a Babilônia seus deuses, como faziam os reis depois de conquistarem uma cidade e é por isso que encontramos essas evidências por lá.


 As principais fontes de informação sobre a Asherah são textos ugaríticos datados do segundo milênio antes da Era Comum, quando a deusa era chamada ’Atirat(u). No ciclo de Baal (KTU 1.1-6), por exemplo, ela é a consorte de El e tem setenta filhos que são deuses menores, dentre eles Ba’al (ou Baal)[3], o deus da tempestade e da fertilidade que luta para estabelecer sua supremacia sobre seus irmãos, os deuses Yam (mar) e Mot (morte).[4]


Desenho técnico de um artefato encontrado em Kuntillet Ajrud: Um vaso do século VIII AEC representando talvez YHWH e Asherah.
Desenho técnico de um artefato encontrado em Kuntillet Ajrud: Um vaso do século VIII AEC representando talvez YHWH e Asherah.

Importantes evidências arqueológicas sobre YHWH e Asherah foram encontradas em Kuntillet Ajrud (Sinai), datada entre o final do século IX e início do século VIII AEC., e em Khirbet el-Qom (Judeia), datada do século VIII AEC. Nesses sítios foram encontradas inscrições que deixam clara a assimilação das características de El por YHWH, nas quais Asherah passa a ser consorte de YHWH.[5] Isso desafia a ideia de que YHWH tenha sido venerado sozinho sem a figura de uma deusa, destoando completamente de outros panteões daquela região. Uma das inscrições encontradas em fragmentos de um vaso de cerâmica (pithoi) em Kuntillet Ajrud confirma isso: “Eu vos abençoo (ou: eu vos tenho abençoado) por YHWH de Samaria e sua Aserá [Asherah].”[6] 


É provável que Asherah tenha sido adorada separadamente por mulheres no templo de Jerusalém sob o título de Rainha do Céu (cf. Jr 44.17-18).[7] Além de ser adorada nos templos de Samaria e de Jerusalém, dentre outros lugares, ela também era adorada nas bamot (lugares altos) sob a representação de uma árvore estilizada (um “poste sagrado”).[8] A cientista da religião Sue’Hellen Monteiro de Matos, reconstruindo o papel das mulheres no templo de Jerusalém, argumenta que essas mulheres não eram só espectadoras, mas exerciam funções sacerdotais ativas ligadas ao culto da deusa Asherah. E faziam isso tecendo mantos sagrados para a deusa e trabalhando na manutenção de rituais nas bamot.[9]


É no reinado de Josias, no século VII AEC, que o culto à Asherah será proibido em Jerusalém e YHWH seguirá só.[10] Com a queda do Reino de Israel em 722 AEC, Josias vislumbrou a chance de reafirmar a independência do Reino de Judá e expandir o território para o norte. Com o intuito de unificar o território, ele precisava promover uma centralização política, econômica e também religiosa, fundindo os mitos e lendas contados nos dois reinos e formando assim uma identidade nacional.[11]


Como religião e política não eram esferas separadas, instaurar uma narrativa religiosa única, impor o culto a uma única divindade e centralizá-lo em Jerusalém, capital do Reino de Judá, era a estratégia mais eficaz de controle. Mas isso não foi feito sem muita violência, como esclarece a teóloga e linguista Angela Natel em sua tese de doutorado, que virou livro, intitulada De Asherah a Lo-Ruchamah: as violências das monoculturas na supressão do feminino no espaço sagrado, em perspectiva feminista decolonial.

 


 Notas


[1] RÖMER, Thomas. A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2016, pp. 157-158; MATOS, Sue’Hellen Monteiro de. As sagradas de Asherah e YHWH: narrativa e memória. O sacerdócio feminino no templo de Jerusalém. São Paulo: Recriar, 2024, p. 23.

[2] KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2018, pp. 17, 163.

[3] Ba’al é tecnicamente filho de Dagan, mas integrado à assembleia de El.

[4] RÖMER, 2016, pp. 157-158.

[5] MATOS, Sue’Hellen Monteiro de. As sagradas de Asherah e YHWH: narrativa e memória. O sacerdócio feminino no templo de Jerusalém. São Paulo: Recriar, 2024, p. 25.

[6] RÖMER, 2016, p. 159.

[7] RÖMER, 2016, p. 166.

[8] RÖMER, 2016, p. 167.

[9] MATOS, 2024. Cf. capítulo 3.

[10] MATOS, 2024, pp. 167, 168.

[11] RÖMER, 2016. Cf. capítulo 12. 


Referência

 

KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

MATOS, Sue’Hellen Monteiro de. As sagradas de Asherah e YHWH: narrativa e memória. O sacerdócio feminino no templo de Jerusalém. São Paulo: Recriar, 2024.

NATEL, Angela. De Asherah a Lo-Ruchamah: as violências das monoculturas na supressão do feminino no espaço sagrado, em perspectiva feminista decolonial. 463 f. Tese (Doutorado em Teologia). Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2024.

RÖMER, Thomas. A origem de Javé: o Deus de Israel e seu nome. São Paulo: Paulus, 2016.


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