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Sobre os estudo do Jesus histórico – parte III

Atualizado: 12 de jun. de 2023


Os critérios usados no estudo do Jesus histórico


Para estudar os textos neotestamentários de forma crítica e extrair deles informações mais prováveis sobre quem teria sido Jesus e o que ele teria dito e feito, são usados critérios, e os mais úteis, segundo Meier (2003, pp. 21-23), são:

1) O critério do constrangimento, que “aponta o material dos Evangelhos que dificilmente teria sido inventado pela igreja primitiva, pois poderia criar constrangimentos ou dificuldades teológicas para a igreja mesmo durante o período do NT [Novo Testamento] (p. ex., o batismo de Jesus por João [e também o local de nascimento e Jesus, a crucificação, as mulheres sozinhas viajando com Jesus celibatário e seus discípulos homens])”;

2) O critério da descontinuidade, que “enfoca palavras ou feitos de Jesus que não podem ser originários quer do(s) judaísmo(s) do seu tempo, quer da igreja primitiva (p. ex., a rejeição do jejum voluntário por Jesus).” Outro exemplo, segundo Meier, seria aquele “em Marcos 12,26, no debate com os saduceus a respeito da crença na ressurreição geral dos mortos, o curioso recurso de Jesus a Êxodo 3,6 (‘Eu sou Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’) é descontínuo em face dos argumentos, tanto rabínicos como dos primeiros cristãos, a favor da ressurreição”;

3) O critério da múltipla confirmação, que “focaliza as falas e ações de Jesus atestadas em mais de uma fonte literária independente (p. ex., Marcos, Q [abreviação de quelle, que na língua alemã significa “fonte”. Trata-se de uma fonte usada apenas na redação dos Evangelhos de Mateus e Lucas], Paulo ou João) e/ou em mais de um gênero ou forma de literatura (p. ex., falas de Jesus sobre o custo do discipulado e também narrativas sobre seu chamado peremptório de vários discípulos). Por exemplo, o fato de Jesus proibir o divórcio é corroborado pelo testemunho independente de Marcos, Q e Paulo; a reputação de Jesus de, durante sua vida, ter devolvido a visão a cegos é confirmada por uma fala em Q e por narrativas em Marcos e João; [...] Marcos, João, a tradição especial de Mateus, a tradição especial de Lucas e Paulo em Gálatas e 1 Coríntios atestam que Jesus tinha um discípulo chamado Simão, que também recebeu o segundo nome ou apelido de Kepa’ (= Cefas, Pedro, ‘a Rocha’)”;

4) O critério da coerência, que “só entra em cena depois que certa quantidade de material histórico tenha sido isolada por outros critérios. Esse critério sustenta que feitos de Jesus que se ajustam bem à ‘base de dados’ preliminar estabelecida pelos outros critérios têm uma boa probabilidade de ser históricos”. Segundo o autor, um exemplo seria “a criação por Jesus de um círculo mais íntimo de doze discípulos, simbolizando os doze patriarcas e/ou tribos de Israel, é coerente com seu autoconceito como profeta escatológico, à maneira de Elias, enviado para reunir todo Israel nos últimos dias”;

5) O critério da rejeição e da execução de Jesus, que “em lugar de julgar feitos individuais de Jesus [...]”, “se volta para o padrão mais amplo de seu ministério e pergunta que palavras e feitos se enquadram em seu julgamento e crucificação e os explicam. Um Jesus cujas palavras e ações não ameaçassem ou perturbassem as pessoas, em particular os poderosos, não é o Jesus histórico”. O autor cita como exemplo “a habilidade de Jesus em atrair grandes multidões entusiastas, sobretudo quando em peregrinação a Jerusalém para as grandes festas como a Páscoa judaica, ajuda a explicar por que Caifás e Pilatos teriam passado cada vez mais a considerá-lo uma figura perigosa que seria melhor eliminar antes que viesse a representar uma ameaça maior à ordem pública.”


Meier (2003, p. 23) ressalta que existem vários outros critérios secundários que podem ser usados no estudo do Jesus histórico, mas só como “suporte” ou para confirmar os critérios acima descritos. Estudos linguísticos, antropológicos, históricos, sociológicos e principalmente arqueológicos ajudam a embasar esses critérios.


 

Bibliografia


MEIER, John P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. Vol. 3, liv. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2003. (Coleção Bereshit).

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